
LITERATURA INFANTIL – UM CAPÍTULO À PARTE
“Ler, para mim, sempre significou abrir todas as comportas para entender o mundo através dos olhos dos autores e da vivência das personagens ... Ler foi sempre maravilha, gostosura, necessidade primeira e básica, prazer insubstituível ... E continua, lindamente, sendo exatamente isso!”
Fanny Abramovich
Fonte de informação e prazer, encantamento e emoção, a literatura deve ocupar um espaço de real importância na vida da criança, merecendo, assim, um tratamento especial em sala de aula.
Levando-se em consideração que a escola é a principal e, às vezes única, instituição responsável pela mediação dos conhecimentos humanamente produzidos, é seu dever fundar uma base sólida para a vida literária de seus aprendizes. Não se justifica, porém, a forma como às vezes vem sendo encaminhada.
A idéia, sabiamente colocada, de que a literatura infantil tem papel fundamental no processo de alfabetização, gerou equívocos tanto de encaminhamento quanto de utilização pelas instituições educacionais.
Se, por um lado, na década de 80, no mercado editorial ela chegou com firmes pretensões de substituir o livro didático, numa mistura de “faz-de-conta” com “coisas sérias”, contribuindo para queda de qualidade artística das obras infantis, por outro lado, na sala de aula, a tendência, muitas vezes, é priorizar a apreensão do código escrito ao conteúdo do texto literário, resultando este texto num mero pretexto para silabação e de motivação para a introdução de conteúdos programáticos para todas as áreas do conhecimento. Ou ainda, ao invés de ser objeto de estudo para desvelar a ruptura de padrões sociais colocados, a hora da história ainda se presta a pregar a obediência, a consolidar noções maniqueístas do Bem e do Mal, a passar idéias patrióticas ou religiosas, enfim, a reproduzir a sociedade classista e sectária que tanto deveria ser combatida e superada.
Assim, além desse empobrecimento ao se lidar com essa manifestação artística e cultural - em favor da reprodução de desenhos e dramatização - a verdadeira função da Literatura foi relegada.
Ressalte-se, nos parágrafos anteriores, que foi chamada a atenção para o papel, não da literatura infantil, mas da literatura, pois, para se entender desta, há que se conhecer aquela.
Aqui, mais uma vez, nossa história, enquanto leitores, é que determinará o uso e a função que atribuiremos ao texto literário em nossa prática pedagógica.
Se a relação do professor com a literatura ocorrer no nível da sensibilização, da emoção (pois é ali que ela atua diretamente); se ele perceber a intencionalidade simbólica e discernir que cada obra é utilizada para mostrar o que o autor pensa sobre determinado assunto; se notar a diferença entre um obra fechada, onde todos os leitores lêem a mensagem no mesmo nível, e obra aberta em que o interlocutor também é autor, complementando o texto com suas outras leituras anteriores e suas experiências de vida, então estará clara a função da literatura infantil em sala de aula.
Será fácil, então, discutir com os alunos, por exemplo, com que intenção Sylvia Orthof escolheu uma ovelha, e não uma cabra, para protagonizar MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS e porque, na mesma obra, ela repete tantas vezes a mesma ilustração.
Ou ainda, qual a relação existente entre ilustração, texto e diagramação no livro de Michelle e Liliana Iacocca, A FARRA NO FOMIGUEIRO, quando se dá a quebra da estrutura social enfocada pelos autores.
E mais, que recursos de sintaxe utilizou Sérgio Caparelli no poema OS SAPOS INVENTORES e com que intenção.
O uso predominante, por Marcelo Xavier, das palavras ou das imagens em “TEM DE TODO NESTA RUA”.
Tudo isso ainda, sem falar na graça e no prazer de imagens rimadas ou rimas imaginadas dos livros sem texto escrito, dos livros de poesia, dos livros de adivinhas e tantos outros que estão aguardando a leitura que leitores vorazes farão para se tornarem cúmplices de suas alegrias e tristezas.
Se, por outro lado, essa forma de arte e, portanto, forma de ver e de representar o mundo, for algo que não interfira no modo de ser do professor-leitor, a literatura não servirá para nada além de fixar ortografia, ensinar sinais de pontuação ou ampliação do vocabulário.
A questão levantada por Rubens Alves, buscada em Guimarães Rosa, merece aqui ser lembrada. Nós, adultos, imediatistas que somos, “não pensamos na beleza da travessia, mas no momento da chegada”. Isso significa compreender que é no processo que se dá a aprendizagem e que os resultados aí mesmo residirão, não cabendo, portanto aguardar a chegada ao produto final.
Drummond diz “amar se aprende amando”. Plagiando-o podemos afirmar: ler se aprende lendo e refletindo sobre o que é lido. Por isso, trabalhar com Literatura infantil implica ler para e com os alunos, tornando-os cúmplices dos autores, de nossos pensamentos e dos pensamentos dos colegas sobre a obra analisada.
Cada história, cada fato, cada personagem será abstraído de forma particular por seus muitos leitores e encontra-se, exatamente, no debate dessas diferenças o verdadeiro trabalho com a obra literária. É isso que determinará o amadurecimento e a formação de cada leitor e, inequivocamente, é através dessa dinâmica que será possibilitada a ampliação da visão de mundo e da capacidade de análise sobre o mesmo.
Todavia, ignorando completamente a história de leitura de uma nação inteira, onde livros, teatros e obras de arte em geral são privilégio daqueles 0,2% da população, queremos mini-leitores prontos, que saibam interpretar histórias lidas, que saibam manusear devidamente os livros e ainda, depois de tudo isso, que sintam prazer de ler.
Falar de travessia é falar em meio de atravessar (seja sobre a ponte ou em canoa) e a medição do professor mais uma vez é fundamental para aquisição de mais este conhecimento sobre o mundo: o prazer também é aprendido.
É, aquele que aprenderá, se preciso for, que irá dar acesso a essa população mirim iletrada, ávida por encantamento, alegrias e desafios, o gosto de um bom texto literário.
É, sobretudo, na DISCUSSÃO e na REFLEXÃO sobre a obra lida ou ouvida que se centrará o trabalho com o livro infantil.
É auxiliando a estabelecer relações com o que já foi lido, ouvido e vivido, que o professor estará subsidiando a verdadeira mediação com o conhecimento literário.
Discutindo o entendimento que cada aluno teve do texto, solicitando a opinião da “maioria”, possibilitando a argumentação e propiciando o debate de opiniões contrastivas, enfim, orientando a reflexão mais profunda, possível ao grupo, é que estaremos promovendo o crescimento do aluno enquanto leitor.
Esse texto é de uma educadora que vive de sonhos como muitas... Seu nome ? Sandra Bozza.Acho muito legal compartilhar bons textos .
“Ler, para mim, sempre significou abrir todas as comportas para entender o mundo através dos olhos dos autores e da vivência das personagens ... Ler foi sempre maravilha, gostosura, necessidade primeira e básica, prazer insubstituível ... E continua, lindamente, sendo exatamente isso!”
Fanny Abramovich
Fonte de informação e prazer, encantamento e emoção, a literatura deve ocupar um espaço de real importância na vida da criança, merecendo, assim, um tratamento especial em sala de aula.
Levando-se em consideração que a escola é a principal e, às vezes única, instituição responsável pela mediação dos conhecimentos humanamente produzidos, é seu dever fundar uma base sólida para a vida literária de seus aprendizes. Não se justifica, porém, a forma como às vezes vem sendo encaminhada.
A idéia, sabiamente colocada, de que a literatura infantil tem papel fundamental no processo de alfabetização, gerou equívocos tanto de encaminhamento quanto de utilização pelas instituições educacionais.
Se, por um lado, na década de 80, no mercado editorial ela chegou com firmes pretensões de substituir o livro didático, numa mistura de “faz-de-conta” com “coisas sérias”, contribuindo para queda de qualidade artística das obras infantis, por outro lado, na sala de aula, a tendência, muitas vezes, é priorizar a apreensão do código escrito ao conteúdo do texto literário, resultando este texto num mero pretexto para silabação e de motivação para a introdução de conteúdos programáticos para todas as áreas do conhecimento. Ou ainda, ao invés de ser objeto de estudo para desvelar a ruptura de padrões sociais colocados, a hora da história ainda se presta a pregar a obediência, a consolidar noções maniqueístas do Bem e do Mal, a passar idéias patrióticas ou religiosas, enfim, a reproduzir a sociedade classista e sectária que tanto deveria ser combatida e superada.
Assim, além desse empobrecimento ao se lidar com essa manifestação artística e cultural - em favor da reprodução de desenhos e dramatização - a verdadeira função da Literatura foi relegada.
Ressalte-se, nos parágrafos anteriores, que foi chamada a atenção para o papel, não da literatura infantil, mas da literatura, pois, para se entender desta, há que se conhecer aquela.
Aqui, mais uma vez, nossa história, enquanto leitores, é que determinará o uso e a função que atribuiremos ao texto literário em nossa prática pedagógica.
Se a relação do professor com a literatura ocorrer no nível da sensibilização, da emoção (pois é ali que ela atua diretamente); se ele perceber a intencionalidade simbólica e discernir que cada obra é utilizada para mostrar o que o autor pensa sobre determinado assunto; se notar a diferença entre um obra fechada, onde todos os leitores lêem a mensagem no mesmo nível, e obra aberta em que o interlocutor também é autor, complementando o texto com suas outras leituras anteriores e suas experiências de vida, então estará clara a função da literatura infantil em sala de aula.
Será fácil, então, discutir com os alunos, por exemplo, com que intenção Sylvia Orthof escolheu uma ovelha, e não uma cabra, para protagonizar MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS e porque, na mesma obra, ela repete tantas vezes a mesma ilustração.
Ou ainda, qual a relação existente entre ilustração, texto e diagramação no livro de Michelle e Liliana Iacocca, A FARRA NO FOMIGUEIRO, quando se dá a quebra da estrutura social enfocada pelos autores.
E mais, que recursos de sintaxe utilizou Sérgio Caparelli no poema OS SAPOS INVENTORES e com que intenção.
O uso predominante, por Marcelo Xavier, das palavras ou das imagens em “TEM DE TODO NESTA RUA”.
Tudo isso ainda, sem falar na graça e no prazer de imagens rimadas ou rimas imaginadas dos livros sem texto escrito, dos livros de poesia, dos livros de adivinhas e tantos outros que estão aguardando a leitura que leitores vorazes farão para se tornarem cúmplices de suas alegrias e tristezas.
Se, por outro lado, essa forma de arte e, portanto, forma de ver e de representar o mundo, for algo que não interfira no modo de ser do professor-leitor, a literatura não servirá para nada além de fixar ortografia, ensinar sinais de pontuação ou ampliação do vocabulário.
A questão levantada por Rubens Alves, buscada em Guimarães Rosa, merece aqui ser lembrada. Nós, adultos, imediatistas que somos, “não pensamos na beleza da travessia, mas no momento da chegada”. Isso significa compreender que é no processo que se dá a aprendizagem e que os resultados aí mesmo residirão, não cabendo, portanto aguardar a chegada ao produto final.
Drummond diz “amar se aprende amando”. Plagiando-o podemos afirmar: ler se aprende lendo e refletindo sobre o que é lido. Por isso, trabalhar com Literatura infantil implica ler para e com os alunos, tornando-os cúmplices dos autores, de nossos pensamentos e dos pensamentos dos colegas sobre a obra analisada.
Cada história, cada fato, cada personagem será abstraído de forma particular por seus muitos leitores e encontra-se, exatamente, no debate dessas diferenças o verdadeiro trabalho com a obra literária. É isso que determinará o amadurecimento e a formação de cada leitor e, inequivocamente, é através dessa dinâmica que será possibilitada a ampliação da visão de mundo e da capacidade de análise sobre o mesmo.
Todavia, ignorando completamente a história de leitura de uma nação inteira, onde livros, teatros e obras de arte em geral são privilégio daqueles 0,2% da população, queremos mini-leitores prontos, que saibam interpretar histórias lidas, que saibam manusear devidamente os livros e ainda, depois de tudo isso, que sintam prazer de ler.
Falar de travessia é falar em meio de atravessar (seja sobre a ponte ou em canoa) e a medição do professor mais uma vez é fundamental para aquisição de mais este conhecimento sobre o mundo: o prazer também é aprendido.
É, aquele que aprenderá, se preciso for, que irá dar acesso a essa população mirim iletrada, ávida por encantamento, alegrias e desafios, o gosto de um bom texto literário.
É, sobretudo, na DISCUSSÃO e na REFLEXÃO sobre a obra lida ou ouvida que se centrará o trabalho com o livro infantil.
É auxiliando a estabelecer relações com o que já foi lido, ouvido e vivido, que o professor estará subsidiando a verdadeira mediação com o conhecimento literário.
Discutindo o entendimento que cada aluno teve do texto, solicitando a opinião da “maioria”, possibilitando a argumentação e propiciando o debate de opiniões contrastivas, enfim, orientando a reflexão mais profunda, possível ao grupo, é que estaremos promovendo o crescimento do aluno enquanto leitor.
Esse texto é de uma educadora que vive de sonhos como muitas... Seu nome ? Sandra Bozza.Acho muito legal compartilhar bons textos .
Tenho feito muitos trabalhos de literatura com recontos,ilustrações,criações...As crianças adoram.Tente,invente e faça diferente. Beijos